Hispéria (ou Hespéria) 1. Uma das ninfas inácides concebidas pelo potâmoi Ínaco 2. Hispânia, ou Península Ibérica (Hespérica), tal como referida por Camões 3. Cidades dos Estados Unidos da América (Califórnia e Michigan) 4. Asteróide foi descoberto em em 1861 Giovanni Schiaparelli (69 Hesperia) 5. Espécie de insecto (Aphaenogaster hesperia) 6. Espécie de gastrópode (Inodrillia hesperia) 7. Região do planeta Marte (Planum Hesperia) 8. Espécie de borboleta 9. Jornal (Hesperia) académico de Arqueologia 10. Cidade da Península Ibérica para onde confluem viajantes de todas as partes do mundo e epicentro dos estudos sobre os mitos (Hispéria).

quinta-feira, 13 de março de 2014

Nandu

Nandu Juliueru Juiletiuru Guitolitu solta uma baforada e recomeça a cantiga: "Nós dois pela mão, nós dois pela mão, nós dois pelo pé, nós dois pelo pé, remando lentamente pela rua das manhãs." À sua frente, Analitu Oliutu Liutu estende uma lata vazia de salsichas e pede dinheiro.
Nandu e Analitu chegaram 3 anos atrás a Hispéria e nunca mais quiseram ir embora. Ganham a vida como músicos de rua e habitam uma cama fria sob a ponte do rio Amarelo, a sul da cidade.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Pierre-Yves Andour



Pierre-Yves Andour (Dakar, 2 de Novembro de 1967) é um compositor, intérprete e músico senegalês apenas ultrapassado em fama por Youssou N'Dour. Em 1998, a revista africana Africa is Joy, especializada em música contemporânea de raízes tradicionais, em danças tribais e em lotes de pimenta – um conjunto temático que teve o seu apogeu nos anos 50, mas que tem vindo a perder fulgor -, considerou Andour um ícone da música senegalesa. “Apesar da fragilidade das suas cordas vocais, dos seus fracos dotes enquanto percussionista, da sua ridícula capacidade interpretativa e das suas letras demasiadamente básicas, Andour tornou-se um ícone da música senegalesa. Não conseguimos ainda descortinar as razões para esta adoração patética, próxima da automutilação, a que jovens e velhos se prestam”, esclarecia o editor Jean-Luc Vilou. Na capa da revista, Andour sorria encostado a uma palmeira na Corniche de Dakar e logo atrás dele uma multidão de jovens descalços praticava desporto. Em Hispéria, Andour montou um pequeno negócio de búzios do mar que Maria Boneca, uma brasileira do Ceará, mãe de 5 filhos, José Um, José Dois, José Três, José Quatro e José Almeida, cuida com carinho como se da sua própria casa se tratasse. “Trabalho para o senhor Pierre-Yves Andour há dois anos. Nunca me faltou ao respeito, que é o mais importante, e apalpa-me sempre as mamas quando chega de viagem, e isso dá-me algum prazer”, esclarece Maria Boneca. “Eu gosto disso, amo búzios, penso que é uma paixão familiar, porque já o meu adorado pai adorava búzios, assim como o seu pai e o pai do seu pai e o pai do pai do seu pai ”, acrescenta Andour sorrindo. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Abhijat Abhijat



“Esquecer o mar e viajar” - é assim que Abhijat Abhijat descreve a forma como inspira profundamente e submerge no caldo das ostras do mar de Ratnagiri. “Os primeiros dois minutos são de absoluto abandono. Move-nos a água interna, a água das veias, a águas de milhões e milhões e milhões de animais marítimos”. Além de ostreiro, Abhijat Abhijat  é um dos maiores poetas indianos vivos, tendo sido, em 1995, distinguido pela academia indiana com o prémio carreira por 90 anos ao serviço da poesia. “Eis o mar / e nele me afogo” são os seus dois versos mais famosos, profusamente cantados pelas velhas e novas gerações de cantores e trovadores no entardecer dos bares marítimos da Índia. Poderemos encontrá-lo junto a uma banquinha construída em madeira balsa, ao fundo da Rua 13, uma das artérias comerciais mais importantes de Hispéria, vendendo chapéus de palhinha e coloridos cata-ventos. Ali permanecerá por 2 meses, esperando que os ventos quentes reencontrem o aroma da canela nas ruas de Ratnagiri.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Lista de objectos que Varazabi, a ugandesa, guarda na sua malinha de osso e pele de leopardo

1. Uma chave amarela outrora pertença da sua avó materna, Mariunda, voraz comedora de peixes-gato do rio Urj, usada para espantar os espíritos da casa branca, herança de um velhote inglês que julgou encontrar na floresta verde de Urj o paraíso terrestre.
2. Uma semente de rutileiro, árvore abundante na zona setentrional de Urj cuja principal característica é brilhar nas noites de tempestade.
3. A fotografia de um chimpanzé chamado Urj comendo um fruto amarelo semelhante a uma banana.
4. Um cordão de tecido prateado e roxo usado durante as cerimónias religiosas de Urj, o deus das chaves, das sementes, das fotografias, e dos cordões - na verdade, o deus de tudo o que brilha e de tudo o que se apaga, tal como descrito no livro de Urj, um livro de 333 páginas escrito em folhas de palmeira e de bananeira.
5. Um rádio a pilhas oferecido por Krugman, um viajante alemão coxo especializado em viagens no árctico.
6. Areia quente do deserto de Urj.
7. Um gafanhoto verde embalsamado.
8. Um casulo de amaxinadraneres, a majestosa borboleta dos pântanos de Urj que voa 450 quilómetros até chegar ao meio do deserto de Urj e aí morrer sob o brilho da lua.
9. Uma caixinha de chá do Ceilão com 800 anos.
10. Um frasquinho azul com os cordões umbilicais secos dos seus 50 filhos: Abelinduna, Retuinda, Tuounda, Reundoio, Qenlotue, Aniolunde, Creiunsadute, Veriulundo, Olunidruede, Eqalondeuinde, Lolundoeu, Kiundoeundu, Juliunedui, Kuoluilunde, Jundounde, Mundoeonde, Loeonde, Uilounde, Unonde, Pinudonde, Tuinduendo, Ruentonde, Tywunde, Pondueinde, Quindoende, Munde, Londulinde, Linduindeuinde, Mundiendi, Suiondeuinde, Soindeonduei, Kulionde, Pondeiunde, Sazuindonde, Zuzoende, Bondeuinda, Numbuindeonde, Kuimbeonde, Deonunde, Eundouinde, Aquindoende, Londeuinide, Pondeloindonde, Londuende, Desuendonde, Suindedonde, Azuonde, Quindeonde, Toundeonde, Conduinda (grafia dos nomes adaptada a partir do dialecto exclusivamente oral de Urj).

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Joleen



Joleen nasceu e foi criada na Dakota do Sul, Estados Unidos da América. Não conhece uma única casa por lar. Durante toda a vida vagueou pelo estado americano, ora ao colo da mãe, uma mulher forte como uma torre de pedra, ora assente na sua própria passada, uma passada tímida de quem não conhece as pessoas e não sabe o que delas esperar. Joleen é loira e gorda como uma búfala pequenina. Inquieta-se muito com sons. “Nunca me habituei aos sons das cidades”, justifica. Todos os sons que conhece estão na Dakota do Sul. Veio para Hispéria por conta de uma enfermeira. “Chama-se Maureen, conheci-a num vilarejo logo depois da morte de minha mãe, atacada por formigas guerreiras. Não sei viver sozinha, senhor.” Os olhos de Joleen esquecem a tarde encardida, as pessoas que passam na rua e as pombas que vagueiam estranhas nos beirais. Maureen, a enfermeira, conta mais de 90 anos e preocupa-se muito com o destino de Joleen. Enuncia, de forma ritmada, os 100 últimos países que visitou e as 300 últimas pessoas que tratou, a última das quais às voltas com uma naso-faringite - um homem que dizia chamar-se “A minha cabeça é o céu”, de uma aldeia minúscula no deserto do Botswana. “Joleen acompanha-me há 5 anos. Para nossa grande desgraça, as suas mãos não acompanham os talentos para enfermeira. Caso contrário, passar-lhe-ia, como a uma filha, tudo o que sei”. Estão em Hispéria há 3 dias e procuram Joel Ramos, mitologista vocacional, para que as ajude a encontrar o caminho de Joleen. Maureen olha carinhosamente Joleen e acaricia-lhe as faces. “Não é culpa tua, minha querida Joleen”, diz. Joleen esconde a cara com as mãos para que não se veja que chora.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Um país chamado Gonçalo M. Tavares



Muitos anos atrás, os habitantes de um país chamado Gonçalo M. Tavares, os senhores, deixaram de utilizar advérbios nas suas conversas; simplesmente deixaram de os utilizar, sem razão aparente, decreto ou notificação: esqueceram-se da sua existência, digamos assim. O que começou nos advérbios de modo, rapidamente se estendeu os advérbios de tempo e aos advérbios de lugar. Alguns senhores do país ainda os guardaram para si em silêncio, no interior das suas cabeças ou em pequeninos cofres escondidos num local remoto da casa. Os advérbios tornaram-se de tal forma raros e preciosos que começaram a gerar cobiça e inveja, e quando algum senhor os pronunciava porque se distraía corria sério risco de sofrer uma agressão e ser mesmo espoliado dos seus preciosos advérbios, ora porque lhe abriam a cabeça e os roubavam, ora porque o torturavam até que confessasse em que lugar da casa os guardava. Mas a calamidade não acabou aqui. A seguir aos advérbios, os adjectivos também desapareceram misteriosamente. Nunca mais o dia esteve quente ou frio, nunca mais as pessoas foram bonitas ou feias, tristes ou alegres, nunca mais as ruas estiverem enfeitadas, nunca mais Wittgenstein foi silencioso ou barulhento, gordo ou magro. E a seguir aos advérbios e aos adjectivos perderam-se as conjunções. Nunca mais o senhor foi beber água à fonte porque tinha sede, ou o senhor procurou uma sombra por causa do calor mas não encontrou nenhuma. Por essa altura, as ruas tornaram-se caóticas, as pessoas não se falavam por vergonha, ou se o tentavam não se entendiam, as lojas deixaram de vender porque ninguém percebia os clientes, as repartições públicas tornaram-se ineficazes, e não raras vezes um dia inteiro não chegava para atender o pedido de um senhor apenas; também os portos e os aeroportos fecharam porque ninguém sabia explicar quando deveria seguir a mercadoria, e as fábricas encerraram porque a cadeia hierárquica e todos os sistemas de controlo deixaram de funcionar. O país entrou em colapso. Por fim, perderam-se os substantivos e os habitantes esqueceram o nome das ruas, o nome das pessoas com quem falavam e o próprio nome; deixaram de saber o nome dos melros, o nome da lua e o nome dos santos. Limitavam-se a enunciar um conjunto de verbos, quase sempre no infinito, cujo sentido de nada valia. Bem poderiam os senhores gritar CORRER, SALTAR, PULAR, AGIR, que nada acontecia. Era como se os verbos tivessem perdido a capacidade de gerar ou apelar a qualquer acção. Nesse mesmo dia tudo parou e os senhores resolveram abandonar o país. Nunca em nenhum êxodo se falou tão pouco.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Jusafim



Jusafim vem de uma terra muito distante, para lá das nuvens e para lá das próprias gotas de chuva. No seu país, garante, não chove vai para 200 anos, “toda a nossa água nasce com naturalidade nas rochas da montanha”. No seu país, continua, um país pequeno onde apenas cabem ao mesmo tempo 500 pessoas, não há crianças, “todos somos velhos de rugas fundas como o esqueleto das escarpas”. Jusafim foi casado por duas vezes.
- A minha primeira mulher, a maldita Juseína, era doce como uma rola, macia como uma pena, mansa como um cachorro. Conhecia-a na festa de S. Histogiado, o santo milagreiro das galinhas, durante a impiedosa procissão dos 30 giros. Juseína fora arrastada na perdição dos amores de Adulínea, a sua irmã mais velha, por Rudolfo, um velho lobo-do-mar que comandava um não menos velho barco de pesca dos Camarões, e que conhecera durante um fogacho mais expressivo de uma tempestade em alto-mar. Tê-lo-á visto a partir do promontório de Akutiu, chefiando com grande severidade os marujos, e por ele desenvolveu espécie de paixão mística de que nem mil desencantamentos a retiraram. Juseína criou-me dois filhos e duas filhas, nenhum dos quais vejo há mais de 15 anos. Saíram de casa, todos eles sem excepção, com 14 anos, já homens e mulheres. Os rapazes são pescadores de baleias e as raparigas dedicam-se a dedilhar a harpa e outros instrumentos de cordas com grande precisão e agora tocam na banda musical das 80 ilhas, uma fanfarra potentíssima com mais de 500 executantes que percorre o sudeste asiático e mais além. Juseína fugiu, com grande mágoa minha, numa noite tão clara como o dia – o dia de Santa Iluminada. Nunca mais a vi. É como se uma parte da minha vida tivesse sumido. Ademais, levou-me todos os seus retratos, todas as suas roupas, e todas as panelas e pratos também.
Jusafim entra na sua pequena casa de adobes imaculadamente branca e de dentro traz pela mão Amaguza, uma mulher linda e altíssima de olhos verdes. Jusafim dá-lhe pelo queixo.
- Estou muito feliz com Amaguza. Conhecemo-nos há 3 meses e logo aí decidimos casar.
Despede-se de mim e entra em casa. Amaguza segue-o docilmente.